Aquário brasileiro busca revolucionar a biologia marinha – VEJA

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Inaugurado há cerca de nove meses na zona portuária do Rio de Janeiro (RJ), o maior aquário marinho da América do Sul já recebeu mais de 1,1 milhão de pessoas. Erguer o colosso de 150 milhões de reais levou dez anos de planejamento focado em três pilares: educação, pesquisa e conscientização. Com capacidade para receber até 8 000 animais, de 350 espécies, o AquaRio é também um grande centro de pesquisa. Atualmente, 15 estudos inéditos de universidades brasileiras estão sendo realizados no local, inclusive sobre a proteção a espécies ameaçadas. “Só é possível convencer as pessoas a proteger aquilo que elas conhecem – e o aquário oferece a experiência completa, integrada à divulgação da ciência”, conta o fundador e diretor-presidente, o biólogo Marcelo Szpilman (CRBio 032176/02-D), 56 anos.
A relação de Szpilman com o mar sempre foi intensa: nasceu perto da praia, no bairro de Copacabana, e adorava pescar com o pai. Aos 11 anos, começou a mergulhar. Mas foi James Bond que o levou a seguir carreira de biólogo com o lançamento do filme 007: O Espião que me Amava (1977), devido à icônica cena em que o inglês confronta o antagonista com seu conhecimento de espécies de peixes.
O filme não só inspirou Szpilman a estudar biologia como também o fez querer causar um impacto similar na vida das pessoas. Esses dois sonhos foram seu norte desde cedo. Primeiro, ele começou escrevendo livros – ao todo, tem cinco obras renomadas publicadas sobre identificação de peixes e tubarões e é reconhecido como um dos maiores especialistas brasileiros nesse tema.
Hoje ele colhe os frutos do bom trabalho no AquaRio. “Meu sonho é captar cada vez mais jovens brasileiros para a ciência. A maioria nunca viu um aquário e agora tem à disposição um equipamento de nível internacional”, orgulha-se. Todos os dias, mais de 1 000 crianças, de escolas públicas e privadas, passam por ali. “O AquaRio pode proporcionar esse ‘clique’ que eu tive a outros jovens. Já recebi várias mensagens de pessoas que resolveram estudar biologia após uma visita ao aquário. É muito gratificante.”
Com o perdão do trocadilho, Szpilman acredita que o AquaRio é um divisor de águas no Brasil. “Vamos criar um boom de aquários marinhos. Muitos já me contataram querendo fazer empreendimentos inspirados nele. E, mais do que isso, atualmente, 80% das pesquisas com animais marinhos feitas no mundo são realizadas em aquários”, relata. O próprio AquaRio, que é 100% privado, investe em pesquisas.
Um dos estudos realizados no AquaRio tem potencial para ser utilizado em curto prazo: trata-se de uma pesquisa para combater o branqueamento de corais. “O coral é um animal que vive em simbiose com as algas, que dão cor e nutrientes a ele. Com as mudanças climáticas e a elevação da temperatura dos oceanos, a alga morre. Sem a alga, o coral perde sua cor e também morre”, explica. A famosa Grande Barreira de Coral na Austrália, por exemplo, sofre com esse problema – dois terços dela estão comprometidos com branqueamento de coral. Para reverter isso, a pesquisa conduzida no aquário do Rio de Janeiro utiliza probióticos para melhorar a saúde das algas e dos corais, mesmo com elevação de temperatura. “É exatamente o que eu esperava do aquário: proporcionar pesquisa séria, relevante e inédita”, comemora.
Sua admiração pelos tubarões e seu desejo de preservá-los foram os grandes motivadores para criar o AquaRio. O biólogo já mergulhou com quase todos os tubarões do mundo, especialmente com os tidos como mais perigosos. Para ele, o maior predador dos mares é outro: o ser humano. “Eu queria desmitificar a noção de que os tubarões são feras assassinas. Mas, para isso, sabia que teria que fazer com que as pessoas tivessem contato mais próximo com ele. Por isso, optei por um aquário”, fala.
Com o AquaRio, seu poder de divulgar ciência – antes, por meio de livros e palestras – foi amplificado. “Agora consigo fazer com que as pessoas entendam a importância de preservar o ecossistema como um todo. Os tubarões matam, no máximo, de três a cinco pessoas por ano, e na maioria das vezes é acidental. Por outro lado, a humanidade mata de 100 a 150 milhões de tubarões todos os anos de forma cruel, por meio da pesca ilegal de barbatanas. Cerca de 120 países participam dessa atividade vergonhosa e totalmente insustentável, incluindo o Brasil. Ao capturarem um tubarão, as embarcações ilegais cortam as nadadeiras e devolvem o animal vivo ao mar, incapaz de nadar”, relata.
O motivo: o tráfico de barbatanas movimenta muito dinheiro. “Enquanto 1 quilo de carne de tubarão vale 1 dólar, 1 quilo de barbatana vale 100 dólares. Existe uma demanda extraordinária por elas, especialmente na China. Lá, a sopa de barbatana é um símbolo de status, e muitos chineses, cerca de 300 milhões, entraram na classe média querendo consumi-la”, explica.
Outro agravante pesa contra a proteção dos tubarões: eles não têm tanto apelo para as pessoas como pandas ou tigres. No entanto, no aquário, Szpilman consegue apresentar o animal sob outro prisma. “Ele é o grande carniceiro dos oceanos e consome outros animais em decomposição. Sem ele, os cadáveres só seriam consumidos por microbactérias e microrganismos, causando um problema de saúde pública. Além disso, sem tubarões, a população de outras espécies aumenta, o que causa desequilíbrio ecológico.”
Atualmente, o AquaRio já estuda a reprodução em cativeiro de tubarões, cavalos-marinhos, arraias e outras espécies marinhas, incluindo as ameaçadas. A sociedade inteira agradece.
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